Eles queriam fazer coisas memoráveis, ter vidas intensas e histórias loucas para contar no ocaso de seus dias. Pensaram em assaltar um banco para financiar as aventuras. Mas nenhum deles queria matar o guarda. Havia, definitivamente, a possibilidade de ter que chegar a este ponto. Mas nenhum tinha esses pendores. Atirar em alguém. Não. Inconcebível.

Não haveria, portanto, o assalto.
Mas poderiam fazer uma longa viagem juntos, pedindo carona, dormindo em albergues, bancos de praça e mesmo sob a lua e as estrelas. Financiados por pequenos trabalhos temporários, seguiriam o horizonte e viveriam de forma espartana. Conheceriam lugares exóticos inacreditáveis. Teriam fotos, causos e memórias para escreverem vários livros, encherem um blog e canal do YouTube. Mas um tinha asma, outro problemas na coluna, já outro só conseguia fazer as necessidades no seu banheiro.

Mochilar pelo mundo não combinava com crises respiratórias, travamento lombar e muito menos com constipação intestinal e laxantes.
Não aconteceria, portanto, a grande viagem.
Mas poderiam montar uma banda! Começariam tocando em festas de amigos, fariam vídeos, perfil nas redes e na escola, todos os divulgariam. Se chamariam “Ninguém matou o guarda” e contariam em entrevistas a história que gerou o nome. Fariam músicas com letras instigantes, provocariam. Chacoalhariam a sociedade.

O problema era o tempo. Um deles leu que são necessárias pelo menos 10 mil horas de treino para ter excelência em algo. Fizeram as contas. Para aprender a tocar, ensaiar e divulgar, teriam que abandonar as maratonas de games, filmes e diversão. A vida seria estudo, prática e estrada. Sem dinheiro.

Não nasceria, portanto, a banda.
Mas eram todos inteligentes e criativos. Poderiam inventar algo revolucionário. Seria só sincronizar as habilidades. Um aplicativo, um jogo, um carro voador, a lâmpada sem rosca, o moto perpétuo, reinventar o guarda chuvas, o açúcar que não engorda, o phaser… tanto para ser feito. Não chegaram a uma conclusão sobre em qual projeto colocariam energia, não planejaram, não empreenderam, não executaram.

Na falta de planos próprios, a vida vai fazendo valer os que ela já testou e aprovou. Arrumaram empregos, casaram, tiveram filhos e vidas corriqueiras cheias de alegrias, dores e desafios cotidianos. Na média, felizes.

No final, restaram lápides com inscrições tão comuns quanto as vidas que viveram. À exceção de uma, com um rebelde desabafo entalhado na pedra: “Quis mudar o mundo, não mudei nada. Quis fazer a diferença, fui indiferente. A vida inteira caguei na mesma privada.”

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