Ninguém sabia de onde aquele velho surgia. Arqueado, claudicante e com a pesada sacola. Instalava-se na praça e oferecia aos passantes seus espelhos. Quem compra espelhos de ambulantes claudicantes velhos hoje em dia?
Alguns curiosos paravam e ele explicava o quanto seus espelhos eram especiais, mas tinha jeito para usá-los.
“Não pode ter pressa” – dizia ele. “Esse não é um espelho para fazer a barba ou espremer espinhas, muito menos para maquiar-se. É para conhecer-se.”
A frase vinha com um sorriso maroto e uma cabeça velha, de pouquíssimos cabelos, sacolejante, em sábio sinal afirmativo. Ele esperava que o cliente parasse de olhá-lo e se voltasse para seu reflexo, então continuava:
“Dizem, os mais antigos que eu, que os olhos são os espelhos da alma…
– Não são as janelas da alma?
“Fique quieto! Os espelhos são meus!…então, os olhos são as primeiras coisas que devemos mirar, quando deparados com nós mesmos. Um espelho em frente a outro mostra o infinito.”
O velho invocava um poder hipnótico nessas palavras.
“O olho é a única ferramenta cuja função lhe revela. A mão, não se sabe como parece, tem o tato mas vive na escuridão. O pé caminha cego, nunca verá seus rastros. Mas não se aprofunde nos olhos, o infinito pode ser muito sedutor e vai devorá-lo. Este espelho, feito com a mais pura prata e o mais cristalino vidro, é um portal para perigos e revelações. Veja agora as bordas dos seus olhos, veja a moldura dos seus seus espelhos.”
– Estou com rugas e olheiras…
“Esta é a arte que você está esculpindo nas bordas do seu infinito. Lhe orgulham? Lhe deprimem?”
Nesse momento, o velho espera um olhar grave, do cliente, em sua direção. A cabeça velha, de poucos cabelos, continua sacolejante, com aquele sorriso de amarelos dentes. O cliente volta-se para o espelho. A venda parece garantida.
“Há tempo, meu jovem, a obra está em andamento, estes entalhes podem se tornar outro desenho se você desejar e se desenvolver a sabedoria para mudá-los…”
– Ah, tá! Eu vou mudar o desenho das minhas rugas?
“Não, pequeno neófito, vai mudar o modo de ver o desenho.”
(Cabeça velha sacolejante com sorriso maroto.)
– Tá bom! Bom papo de vendedor. Quanto custa? Tem maior?
“Meu jovem, meus espelhos, todos, têm esse tamanho. Não foram criados para ver o todo. O todo distrai. Eles foram feitos para que você não se reconheça, mas se conheça. Olhe-se em partes, revele-se, analise-se.”
Todas as pessoas que tinham essa conversa com o velho levavam um espelho. Soube que muitos se transformaram depois da compra, mas soube também que muitos acabaram guardando seus espelhos na última gaveta da última cômoda e morreram sem coragem de olhar seus infinitos e suas bordas.

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