Denis Diderot viveu na França entre 1713 e 1784. Era filósofo, logo pobre. Quando tinha 52 anos, sua filha estava prestes a casar e ele não tinha dinheiro para o dote, nem para a festa, sequer para os risoles e cajuzinhos. O velho Denis tinha dedicado boa parte da vida a um projeto muito legal para a humanidade: foi co-fundador e escritor da “Encyclopédie”, uma das mais famosas e completas enciclopédias do seu tempo.
Catarina, a Grande, imperadora da Rússia, ficou sabendo das dificuldades financeiras do filósofo (fofocas sobre quem está quebrado já corriam nessa época). A soberana compadeceu-se com a situação do pensador e ofereceu uma pequena fortuna pela biblioteca do pé-rapado. Do dia para a noite, Diderot ficou rico.
Logo após a afortunada venda, Diderot comprou um novo e vistoso roupão. Ao guardá-lo, percebeu o quanto o seu guarda roupas era pobre, com vestes gastas e sem graça. Aliás, ele percebeu o quanto estava cercado de posses humildes, sem beleza e sem harmonia com seu novo roupão. Assim vieram novas roupas, um tapete diretamente de Damasco, móveis e esculturas para decorar a nova sala.
Agora o filósofo era uma patricinha no shopping com o cartão do papai. Essa espiral de consumo, motivada pelo próprio consumo, é conhecida por profissionais de marketing como “Efeito Diderot”. Alguns produtos são concebidos em “pacotes Diderot”, você compra um ítem e já é apresentado a uma gama de acessórios e complementos para induzir o consumo de coisas desnecessárias, mas muito legais.
Uma vez entrei na Leroy Merlin pra comprar parafusos. Saí com martelos, alicates, bugigangas para reparos diversos e uma caixa para acomodar as tralhas que nunca uso. Voltando para casa, ouvi a risadinha do Diderot.
Somos inclinados a acumular, nosso cérebro se desenvolveu em tempos difíceis e ficamos com essa característica psicológica. A propaganda e a comunicação sabem utilizar nossa compulsão de sempre encher a vida, nunca esvaziar.
Na contramão, há a tendência de reduzir o consumo. Minimalistas pregam que, se tivermos apenas um item de cada coisa, seremos mais felizes. Creio que abram exceção para roupas íntimas. Um mundo onde todos tenham apenas uma cueca ou calcinha não é um mundo feliz.
Tenho exercitado o desapego, comecei por conceitos, em vez de coisas. Sucesso, riqueza, status social, orientação política e espiritual sempre vêm em “pacotinhos Diderot” de regras. Se você é isso, então tem que ser aquilo. Comprou essa ideia, engole esse pré conceito.
Tem sido mais fácil me livrar desses conceitos do que dos meus oito alicates e cinco martelos.

Compartilhar

Deixe seu comentário