Pedro Stiehl, escritor, crônica, dia a dia, Leonardo da Vinci

“Ofendi a Deus e à humanidade ao fazer tão pouco com minha vida.”
Leonardo da Vinci

Não pensemos que é fácil. Viver a vida, quero dizer. Ser pai, mãe, filho, marido, trabalhador que tem que sustentar uma família. E fazer isso de forma honesta. E num plus, ainda ser atuante na sociedade. Participar da política, da escola dos filhos, da associação de bairro, quiçá de um trabalho voluntário.
E mais: responder por todas estas atuações, ideologicamente. Ou seja: fazer parte de um tipo de turma na sociedade. A favor disso, contra aquilo, ser fascista ou ser rebelde, ser libertário, ser e ser e ser, sempre tendo que ser de um time, de uma conduta, de uma cor, de um exército em sua guerra cotidiana contra os “diferentes”!
E, ao fim, ter tempo ainda para embasar este “ser”, dar-lhe grandeza existencial com poesia, literatura, música e amor. Parece uma receita simples suficiente para a felicidade.
Assim somos quase todos nós, cidadãos comuns. Não temos preocupação com um legado. Só vivemos e cremos que, vivendo, já deixamos um. Mas não temos certeza.
E como não temos certeza, há os que pensam diferente. Há aqueles que abrem mão de muitas coisas boas da vida como forma de potencializar o tempo, o esforço, a dedicação. Tudo em nome de um objetivo: Fazer com que a vida tenha sentido.
Para estes caras, deixar um legado é a forma de a vida ter sentido. Michelangelo, para ter a verdadeira noção dos corpos humanos, convencia os padres a deixá-lo dissecar mortos nos mosteiros da Idade Média. O que fez com esse conhecimento todo mundo sabe.
Nesta leva, temos cientistas que não saem de seus laboratórios, escritores que dedicam seus dias a ler e escrever, músicos que não abandonam seus instrumentos, numa rotina férrea como forma de encontrar o que ninguém encontrou até hoje. Uma nova forma de ver o mundo, de dançar, de fazer pão, de plantar e matar a fome do mundo.
Erwin Schrödinger escreveu sua equação de onda quântica num momento de “explosão erótica”, quando passava um tempo com sua amante numa estação de esqui.
O visceral Henry Miller preferia menos teoria e mais prática e fez do sexo e do prazer tanto sua prática de vida como seu material de literatura. Optou por menos teoria, seguindo ao pé da letra a premissa de Máximo Gorki: primeiro viver, depois escrever.
Leonardo da Vinci, em seu leito de morte, pediu desculpas a Deus e à humanidade por ter feito tão pouco.
León Tolstói fugiu de casa aos 82 anos. O velho León passou a vida lendo e escrevendo, dando à humanidade os imortais “Guerra e paz” e “Ana Karenina”. Mas não estava contente com seu legado. E, no final da vida, ainda queria fazer algo. Não sabia o que nem onde. Ao fim de tudo, ele era só um velho sob as intempéries rigorosas da Rússia. Contraiu uma pneumonia que pôs fim à vida de um homem inconformado com o “pouco” que fizera e que queria ainda mais de si mesmo.
Por fim, como disse o poeta alemão Bertold Brecht: “Há os que lutam a vida toda. Estes são os imprescindíveis”.
E nós, que tipo de pessoas somos nesta caminhada? É preciso deixar um legado? Se é importante, o que temos feito para deixar um? O que temos que fazer para que, à beira da morte, não tenhamos que pedir desculpas à nossa única vida, ao nosso único momento compartilhado com a humanidade e com o universo por termos feito tão pouco?

Deixe seu comentário