Caravanas nunca pararam, na verdade. O trânsito da história é intenso e ininterrupto.
Há três tipos de cães rondando os acostamentos. Os ágeis, que correm acompanhando o fluxo por um tempo, até conseguirem impulso para lançarem-se dentro de um vagão. Há os medrosos, que irão preferir viver na margem. Sobreviverão com restos jogados, sempre acuados pelo desconhecido, pelo trânsito e pelos outros cães raivosos. O terceiro tipo são estes, os raivosos. São os que vivem para latir, por isso parecem ser a maior matilha. Eles também são medrosos, mas orgulhosos, por isso latem. A algazarra e os dentes à mostra o tempo todo são escudos para esses cães. Não que outros não briguem, eles entram nas batalhas certas, nos momentos certos. Cão com noção. A primeira briga dos cães ágeis é com eles mesmos, vencem seus limites pois objetivam a carona, não as rodas. Os medrosos brigam só quando atacados. Os raivosos brigam com tudo que se mexe. Movimento e mudança os irritam profundamente. Vivem miseravelmente, pois a vida e tudo que os cerca é movimento e mudança. Para eles, o mundo ideal seria a estrada vazia e o acostamento escuro para confinar os medrosos. Qualquer caravana é uma invasão intolerável ao seu território.
As rodas. Essas são seu foco. Imaginam que se as destruíssem cessariam as invasões. Com o tempo, nem percebem mais que há um veículo sobre elas.
Atropelos, há muitos. Todos se ferem ou morrem em algum momento. A vida não tem freios. A caravana é implacável. Os medrosos ferem-se menos, arriscam-se menos, vivem mais em um mundo menor.
Os ágeis ferem-se muitas vezes em suas tentativas de embarque. Quando recuperados, tentam novamente. O farão até morrer. Quando machucam-se seriamente, e já não podem mais tentar, definham. Muitas vezes, são devorados pelos covardes quietos ou latidores. Às vezes por ambos, num banquete mórbido.
Os cães raivosos se machucam mais, mas não se importam. A raiva é um ótimo anestésico, e um vício. Mais dor, mais ira.
Os cães bem sucedidos nos embarques seguem o fluxo. Não é exatamente uma vida sem desafios, mas estar no movimento é bem diferente de persegui-lo. Os cães embarcados podem ouvir, lá fora, o eterno alarido dos coléricos perseguidores, mas devem ignorar e seguir. No movimento, não há garantia de permanência, o risco de cair de volta ou de ser jogado para fora é real e exige permanente equilíbrio, principalmente nas curvas e sobressaltos. E sempre é necessário movimentar-se dentro do movimento.
Para onde vai essa caravana, nenhum cão sabe, mas todos sabem que as opções são embarcar, perseguir ou morrer sob as rodas.

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