Doce é o silêncio da madrugada. Sono é para os justos. A insônia é o habitat dos tortos, aflitos, dos malditos, dos nictobatas. Durante o dia, luzes, ruídos e cores são maquiagens necessárias. Os passos apressados e decididos do sucesso não podem ter distrações. Na madrugada, os pensamentos ficam íntimos demais para ficarmos sóbrios.
Estranho! Às vezes, temos um mundo de possibilidades e só queremos uma.
Foi o que ele pensou, enquanto matava a última gelada. Essas coisas lhe vêm à cabeça quando está sozinho, ou seja, quase sempre. Os poucos amigos o chamam de “o cara in”. In-constante, in-consequente, in-deciso…
Saiu de casa, com estes pensamentos in-stigantes e vagou pelo bairro boêmio.
Viu a placa: “Bar Insano”. Parecia promissor.
Encontrou boa música. Um alento. Inebriou-se com ela, e com mais cerveja, obviamente.
Pensou no que já havia vivido, nos relacionamentos, experiências e ex-pessoas de sua vida.
Arrasta um pesado fardo de passado, que o impede de impor passos mais firmes e ágeis em seu presente.
Não fica muito tempo em um lugar, primeiro porque esse passado impertinente, mesmo sendo gordo, coxo e lento, logo o alcança. Segundo, porque se ficar tempo suficiente em um lugar, outras intimidades inconvenientes acontecerão.
Porém e apesar, segue. A banda toca “ I feel good “, ele se sente bem.
Sai do Insano, caminha sobre pedras já pisadas. No inverno passado, seus passos eram acompanhados, hoje eles têm a solidão das possibilidades. Como é lindo e grande o mundo de promessas das possibilidades. Elas foram espertas, se aliaram aos sonhos. Mas basta uma escolha para que milhares de portas se cerrem. Ele já foi malandro, tentou andar em dois mundos, namorar a liberdade e o compromisso ao mesmo tempo. Mas a vida tem um sistema rígido de penalidades para quem faz jogo duplo. Por isso se mantém em movimento, e livre. Sente-se preso na liberdade.
Medo de se relacionar e, novamente, errar. Estar só também pode ser um erro, mas só um se machuca… e ninguém desencaixota a felicidade guardada no outro.
O que acontece com os amores que não deixamos nascer? Migram para almas que querem vivê-los? Ou minguam e secam, junto com as criaturas que os afogaram? Haverá um equilíbrio? Será que aquelas pessoas apressadas dos dias coloridos e barulhentos o encontraram? Não é o que demonstram em seus rostos maquiados.
Segue in-deciso. Encontra um morador de rua bêbado e lhe pergunta:
– Sofrer por amor ou sofrer por solidão?
O bêbado, solenemente, lhe responde:
– Todo homem bom sofre, mas nem todo homem que sofre é bom!
Maldito pinguço!

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