O carro foi criado para agilizar nossas vidas, mas o engarrafamento é a mais inútil perda de tempo da atualidade. Se cientistas quisessem saber o que as pessoas fazem nesse tempo, as respostas seriam: 3% ouvem podcasts, 11% ouvem notícias e música, 19% simplesmente curtem momentos de pura idiotia, 55% escrevem mensagens no celular e checam redes sociais, 12% tiram caca do nariz e liberam flatulências – entre os que estão sozinhos este índice vai a 67%. Alguns tiram caca e liberam flatulências enquanto checam as redes sociais. São os multitarefas do engarrafamento. O momento também é convite para colocar assuntos em dia, isso pode ser um perigo.
– Roberto, sabe há quanto tempo tu não me dirige uma palavra?
– O quê?
– 40 minutos, Roberto! Q–u–a–r–e–n–t–a m–i–n–u–t–o–s !
– Tô prestando atenção no trânsito.
– Que trânsito? Sabe o que significa isso?
– Que tem acidente lá na frente?
– Não, Roberto! Nós não temos assunto! É o começo do fim. Eu li na Revista Amiga que devemos casar com quem gosta de conversar, pois quando o sexo acabar, sobra o papo.
– Que exagero! Às vezes a gente conversa…
– Quando EU puxo assunto.
– Não é bem assim.
– Ah, é? Então começa um assunto, temos tempo!
Roberto tem bagagem cultural, mas sob pressão é como se tivesse recém chegado ao planeta. Seus pensamentos estão em pânico: “Que merda! Tenho que arrumar um assunto que não dê margem a duplas, ou pior, triplas interpretações. Ela já deve estar com sangue nos olhos. Sangue. Será que foi acidente? Se esta bosta de trânsito fluísse, até uma batida me salvaria. Seguro tá em dia… Um assunto, pelamordedeus! É muita pressão. Preciso soltar um pum… quanto tempo será que já passou?”
– Eu vi aquela tua “amiguinha” hoje no salão, Roberto…
– IIH! Ferrou!
– O quê?
– O trânsito! A tranqueira tá grande.
– Ela ficou me olhando com cara de deboche!
– Que amiga?
– Tu tem várias “ex–amigas”, né Roberto? Aquela biscate! Se gabando que faz pilates, modelou o corpo, a bunda tá durinha, blábláblá.
– Ah é?
– Te interessou, vagabundo? Temos que conversar sério! A Talia e o Alfredo estão fazendo terapia de casal, a terapeuta tem uma abordagem holística…

O cérebro de Roberto dispara o mecanismo atávico de desligamento parcial controlado. Audição chega a zero, a cada 2 minutos, um olhar de interesse e um gesto positivo automatizado mantêm a situação distante da barbárie. Enquanto isso, calcula o tempo de tortura até seu destino e aproveita para fazer uma lista mental de assuntos seguros. Na volta do feriadão, outro engarrafamento é garantido.

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