Há mensagens em cada ato, em cada decisão. E elas não estão expressas nas palavras, antes, escondem-se nelas.
Quando demoram décadas para prender um corrupto, então, finalmente, ele cumpre uns meses e vai para sua portentosa mansão com uma tornozeleira, sem devolver tudo que roubou, a mensagem que estão lhe passando é: roube bastante, bons advogados e maus juízes custam caro.
Quando um furto para matar a fome do filho dá cadeia, sem recurso, e malas de dinheiro em apartamento não são provas de crime, a mensagem que passam é: o crime grande compensa, o pequeno não.
Quando corporações ganham empréstimos bilionários a juros baixos para alavancar seus impérios, enquanto pequenos empresários minguam, sugados por impostos, incompetência e teias burocráticas, a mensagem é: tenha amigos poderosos e alimente suas cobiças com carinho e generosidade.
As balas e os sonhos perdidos, a esperança alvejada, os assassinatos sem punição, o medo em cada esquina, a solene ausência do Estado, as sessões plenárias lotadas de ilustres inúteis salvando seus próprios rabos, dizem claramente: bandido bom é bandido com cargo.
Os sazonais palanques iluminados, sempre repletos de discursos indignados e visionários, com soluções para os problemas, com dedos e culpas apontados para os erros da outra bandeira, com os pedidos de confiança e a teatralidade típica dos bufões, gritam: querido palhaço, deixe-me enganá-lo, mais uma vez.
Quando remuneram mal e equipam debilmente professores, a mensagem é: sonhadores, ensinem a essa turba apenas o caminho entre a urna e o curral.
Quando remuneram e equipam mal os policiais, mantendo-os sob um código que esconde abusos e nega direitos, dizem: escravos, controlem aqueles párias. Confinem-os em seus cortiços ou em nossas prisões, não os queremos aqui, sujando nossa vista para o mar.
Quando matam um traficante, fazendo surgir dois no seu lugar, mas deixam livres e saudáveis seus fornecedores de fuzis e drogas, o recadinho é: continuem brincando de tiro ao alvo, está divertido e lucrativo.
Quando líderes estimulam a luta de classes, quando ostentam estandartes nas arenas “nós contra eles”, quando apresentam como seu inimigo o seu vizinho, a mensagem é: matem-se uns aos outros e nos deixem roubar em paz.
Quando aceitamos esses discursos, quando defendemos nossos algozes, quando nos tornamos fanáticos babões repetidores de mentiras, a mensagem que passamos a eles é: estamos divididos, raivosos e inseguros. Venham, por favor, possuir nossos corações e mentes.

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