Dizemos que “adotamos” um animal. Nosso ego alega, com magnânima superioridade, que somos seus donos ou cuidadores porque os escolhemos. Besteira, não temos escolha. Eles habilmente capturam nossos corações, sabem por instinto o que costumamos esquecer pela razão. Sempre preferi gatos a cães. Os felinos são independentes, graciosos, silenciosos (quando não estão no cio) e auto limpantes. Os cães são mais ruidosos, necessitam de carinho constante, é comum serem dramáticos e passionais. Em suma, cão é gente, sem a maldade.
O primeiro cão que eu trouxe para o convívio foi para fins utilitários, precisava de um guarda. Era filhote e desajeitado, mas já um monstro. Tinha tanta expressão facial quanto o Mike Tyson, apenas com o porte e o olhar já cumpria sua função. Lodelick já veio sem cauda, coisa dessas manias humanas de legislar sobre o rabo alheio. Tinha fixação por pneus, deixei um pendurado em uma árvore para que ele não desenvolvesse alguma espécie de trauma ou carência. Gastou meio dia de sua vida investigando um misterioso balde vermelho, esquecido no pátio, até que, com meu aval, pôde destruir completamente a ameaça. Foi adestrado e seu boletim era cheio de boas notas. Orgulho do papai. Tinha dificuldade para resistir a ouriços e pagava caro pelos embates. Eu também. Lodelick ganhou duas companheiras. Na juventude, foram amigas, já na vida adulta houve desentendimento territorial e disputas. Não acabou bem. Toda família tem seu dramas.
Lodelick mudou meu conceito sobre cães. Adestrá-lo me ensinou muito sobre homens. Seu jeito vigilante me fez perceber carinho no que se mostra ameaçador.
Se a cara era sisuda, o que sobrou do rabo revelava discretamente seu contentamento e felicidade.
Dizem que em alguns casos, quando se decepa uma parte do corpo ainda é possível sentí-la. Chamam de síndrome do membro fantasma. Creio que seja o caso dos cachorros que sofrem a mutilação estética conhecida por caudectomia. Tiram-lhes a cauda, mas não sua função.
Lodelick nasceu, viveu, mordeu, latiu, abanou o rabo e morreu.* Exatamente como qualquer ser humano.
*Fragmento da crônica de Rubem Braga “Histórias de Zig”.

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