Compadre Joleno recebeu seu nome do pai, agricultor do Terceiro Distrito. Fanático pelos Beatles desde que ouviu o primeiro bolachão trazido pelo tio Teodolindo, lá das terras onde as casas encostam no céu. Fazia sentido dar o nome de um dos besouros de Liverpool ao filho.
Joleno é figura rara, não só pela personalidade e inteligência, mas por ser mais difícil seu avistamento do que boitatá longe de cemitério.
Joleno largou a vida na cidade e abancou-se nos cafundós do Terceiro Distrito, assumindo a eremitagem cultivada no desagrado do convívio com os comuns. Vive em espartana solidão, colhendo frutos e produzindo cerveja, uma de suas artes. Seus pés tocando chão asfaltado é evento sincrônico raro, que não pode ficar alheio a qualquer ser que habita este lado do véu do universo.
Eu estava dirigindo meu bólido por uma das principais artérias da nossa micromegalópole, indo para um lado querendo ir para outro (coisas que as cidades fazem para nos enlouquecer) quando visei possibilidade de mudada de rumo, embicando a viatura na rampa de garagem ali na frente. Depois era só dar ré e aproveitar a olada do esporádico átimo sem trânsito e voltar para a mão do meu destino.
Eis que, no meio da embicada, me deparo com não mais nem menos do que ele, Joleno, em mais osso do que carne, em grande forma espiritual e ectoplásmica. Acionei os Abêésse. Joleno se assustou com o brutamontes cravando as borrachas na sua frente, mas logo me reconheceu.
Imediatamente, fiz gesto para que ele passasse, pois se tem uma coisa pela qual me orgulho é da minha abundante gentileza. Joleno devolveu o gesto, sinalizando para eu passar. Ele é gentil, não mais que eu. Fiz questão de devolver o gesto devolvido, com movimento longo, mão bem espalmada, pescoço entortado (era a reverência possível naquela situação). Joleno insistiu, se embodocando todo em mesuras me dando passagem. Soltei o cinto, inclinei o quanto pude, entortei perigosamente o pescoço, fiz lento movimento manual, já riscando o parabrisa com as unhas. Esqueci de dizer que Joleno e eu temos o mesmo estoque de teimosia. Ficamos nessa embirração por 38 minutos.
O povo começava a se aglomerar, pensando estar presenciando um raro caso de duplo ataque apoplético-convulsivo auto induzido. Me irritei e fui arrastar o Joleno. Ele é esquálido, mas praticante de KapuKukFu e me derrubou com facilidade. Seguimos em luta pela calçada e quando percebi que já tínhamos rolado o suficiente para passar do carro, entreguei os pontos. Perdi a briga, mas venci a luta. Nos despedimos cordialmente e seguimos rumos.
Se bem conheço o Joleno, ele deve estar agora contando essa história para incautos dizendo:  “E foi assim que se assucedeu o único causo de violenta gentileza acontecido nas terras Ibiás.”

Deixe seu comentário