Filhos vêm ao mundo e passamos a vê-los de outra maneira. Percebermos que aqui é o pior lugar para criá-los. Tenho certeza de que, ao nascer um rebento, uma espécie de gnomo sádico planta perigos e maldades que não existiam no nosso mundo.
Senti o beijo no rosto e o perfume.
– Tchau pai! Tô indo pra festa!
Como pode uma beleza causar tanta angústia? Maldito gnomo!
Sorriso largo, menina mulher, maravilhosa. Como eu queria que não existissem portas que a levassem à rua. Portas que sempre foram meu acesso à liberdade, agora, aprisionam minha alma.
Não tinha jeito, a delicada mão ia perigosamente para a maçaneta, eu ficaria com o perfume no ar e os sussurros do gnomo.
Agora seria o momento de um conselho definitivo, profundo e ao mesmo tempo descolado. Moderno, para ter o poder inevitável de retenção. Deveria ter um tom de humor, o riso ajuda a gravar mensagens. Mas não poderia ser exagerado, impossível de seguir. Nada genérico, fraco.
Também deveria ter uma certa coerência com a vida do conselheiro, a parte mais difícil. Eu poderia já ter um elaborado, sabia que este dia iria chegar.
Este é um conselho que lhe dou: ao nascer seu filho, comece a colecionar conselhos, catalogue-os. Estude-os! Crie-os como se fossem seus. À medida que o filho cresce, adapte-os, invista neles. Faça uma “poupança conselho”. No dia que você estiver na minha angustiante situação, você terá “O Conselho”, cultivado há tempo. Ao proferí-lo, você verá o rosto do seu filho se iluminando, suas pupilas dilatando e, como se fosse mágica, todas as merdas que você fez na juventude não se repetirão para seu anjinho.
Agora eu preciso fazer um saque urgente no banco das minhas experiências de vida. A porta está se abrindo e meu mundo se fechando.
Poderia dizer “Cuidado querida, com os aproveitadores, só querem te usar!” Bah! conselhinho mixuruca! Quem aproveita quem, afinal? Quem usa quem?
“Não deposite muita confiança, as pessoas nos abandonam.” Isso aí! Bela frase. Ainda mais vinda de quem se divorciou quando ela tinha três anos.
“Não beba demais!”. Não posso simplesmente dizer “Não beba.” Seria meu atestado de caretice e incoerência. Se pelo menos eu tivesse mais comida do que cerveja na geladeira…
“Aproveite a vida, ela passa rápido!” Perigoso, muito perigoso!
“A diferença entre o remédio e o veneno está na dose.” É uma boa filosofia de vida, mas só faz verdadeiro sentido depois que descobrimos os tamanhos dos nossos recipientes, lá pelos trinta.
– Filha!
– Já sei pai! Vai vir um conselho, né?
– Não, querida, só um pedido: te diverte e volta bem pra casa. Te amo!
Seus olhos brilharam, também os meus. Nada mais precisava ser dito.
Chupa, gnomo!

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