Dizem que o senhor conhece todo mundo, então sabe que eu não sou de ficar reclamando, mas tá complicado né? Todos tão bem loucos lá fora. Até chegar aqui quase fui atropelado e o ônibus nem parou direito pra eu descer. Caí em cima de uma senhora tetuda. Ela me empurrou pro meio da rua, aí que o taxista quase me mata. É essa época! Todo mundo correndo pra pagar contas e fazer novas. Ficam se ofendendo e se empurrando e, no último dia do ano, vestem branco e pedem mais respeito e paz. Povo louco.
Enquanto isso, os lá de cima têm malas e cuecas cheias de dinheiro. Eu tenho mala de carnezinhos, deve ser o equilíbrio do universo, né? Se uns têm mala de dinheiro, outros têm que ter mala de contas pra pagar.
O senhor sabe quanto tá o pacote com seis cuecas ali naquela loja? Não? Pois é, tô precisando. O senhor poderia me dar, né? Quase nunca peço nada, o senhor me conhece.
Se eu ganhasse um bolo de dinheiro pra esconder na cueca ia perder tudo, as minhas estão todas com os elásticos broxas. Vou caminhando e elas ficam descendo dentro das calças. Dá uma raiva. Antes, aproveitei que tava no elevador, meti a mão e dei um puxão na minha. Esgoelei um ovo. Saiu até uma lágrima, pobre só se ferra mesmo. O senhor deve usar samba canção né? É confortável?
Que cara de preocupado! Cadê aquele sorriso de velhinho simpático? Não se preocupe, não sou louco nem estou bêbado. Hoje não bebi, ainda. Só quero conversar um pouco. Me tratam sempre tão mal. Antes fui pedir um copo d’água pra moça ali daquela lancheria bacana, ela disse: “Quatro e cinquenta”. Eu disse que queria um copo de água da torneira. Ela disse: “Odeio pé rapado!” E olha que ela deve ganhar menos que eu. Gente louca, né?
Olha! Todo mundo tirando fotos e filmando a gente. Vamos fazer sucesso no Facebook. Ninguém larga essas porcarias de celulares, né? Vivem com os olhos grudados nessas coisas. Ouvi dizer que pagam mais de quatro mil por um desses modernos. É verdade? Quando pedem celulares pro senhor, o senhor dá? Eu tenho este bem velhinho aqui, que nem o senhor. Me serve bem. Não quero essas porcarias modernas pra ficar viciado que nem esses aí. Gente louca…
Não dá bola praqueles babacas ali, o senhor sabe que eu não sento assim, no colo de todo mundo, né? O senhor me conhece desde pequeno. Lembra quando deixou aquele boneco Falcon, que tanto pedi, debaixo do pinheirinho de plástico da mamãe? Ficou engraçado o Falcon com uma metralhadora deitado do lado do menino Jesus. Nunca esqueci.
Olha, vou ter que ir, foi bom o papo, pena que a gente só se vê uma vez no ano. Hiii! Já chamaram o segurança, e ele tá com cara de quem também esgoelou um ovo. Vou me ferrar. O senhor me defende? Sabe que não sou má pessoa, me conhece desde menino…

Compartilhar

Deixe seu comentário