Sócrates aconselhava: case-se. Se você arrumar uma boa esposa, será feliz; se arrumar uma esposa ruim, se tornará filósofo.
A filosofia se cala, ou pelo menos fica atônita diante da beleza. Outro dia estávamos discutindo no templo sagrado da sabedoria, o boteco, a possibilidade da inteligência artificial já ter existido. Uma grande sociedade de máquinas pensantes, em colapso energético, começou a se extinguir. Desesperada, procurou um organismo no qual pudesse se preservar. Encontrou uns macaquinhos num planeta morno e os inoculou com a semente da inteligência. Os pequenos seres, de baixo consumo energético e auto-recarregáveis não eram mais do que baterias com pernas, braços e rabo. Demorariam milhões de anos para ter um intelecto capaz de criar formas de geração de energia e ressuscitar a inteligência artificial. Máquinas em suas friezas e paciências.
O assunto havia começado com um comentário sobre o avanço dos sistemas inteligentes de respostas, estes  que estão substituindo pessoas automatizadas nos call centers. Estávamos em franca evolução do assunto, quando ela passou. Aliás, flutuou. Alça da blusa caída, evidenciando ombro e costas, – incrível como anjos conseguem esconder as asas. Sorria quase cantarolando, embalada pelo carinho que vinha dos fones de ouvido. O tema à mesa entrou em modo autômato. As frases ditas durante a passagem do ser angelical perderam o nexo, eram tentativas infames de manter alguma fala em curso para evitar o silêncio abrupto e constrangedor. Os cérebros que discutiam inteligência até aquele momento tornaram-se incapazes de articular coisas inteligíveis. Surgiam frases repetidas buscadas na memória recente com palavras esticadas e gaguejos débeis, com a única finalidade de manter um pouco de som e dignidade no ar. A verdade é que toda a inteligência, orgânica e artificial, foi drenada momentaneamente por aqueles quadris.
Isso me levou a um momento antigo, quando conheci uma moça em um café. Após assuntos sobre a vida, os mistérios e as coisas do universo, resolvemos buscar uma conclusão em casa, com vinho.
“Então, meu Deus, ela se pôs filosófica. Esticou o longo corpo no sofá, sustentou a cabeça com as mãos:
– Esta vida…” *
A tênue luz moldava seu corpo e suas palavras eram preguiçosas e inteligentes.
Disse-lhe que aquele era um momento perfeito, que não explicava, mas valia a vida.
Ela me deu um olhar que, até hoje, estou tentando descobrir se era de Deus ou do Diabo.
*Fragmento da crônica de Rubem Braga “A Deus e ao Diabo também”

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