A desesperança te amarra à cama. Ela não te quer de pé, realizando. Desesperanças preferem os sonhos, neles o controle é real. Neles, o mundo é o ideal. Em desesperança, a pessoa responde “tudo bem”, quando lhe perguntam “tudo bem?” e logo sai, fingindo uma pressa, um compromisso. Vai que lhe exijam um sorriso honesto… Sorrisos, só os amarelos são permitidos pelas desesperanças. Elas querem ser discretas, não querem te dividir com ninguém. “Volta logo pra cama”, ficam sussurrando no teu ouvido.
Uma vez um homem apresentou sua desesperança na rede social. Recebeu tantos conselhos inúteis que ficou desesperado. Agora ele era um desesperançoso desesperado. Teria que dar um agradecimento amarelo a cada um, uma tarefa árdua quando se está atado à cama e precisando de mais uma dose de sonho delirante. Conselhos não matam desesperanças, elas riem deles. Para levar um conselho adiante seria necessária a energia da qual a desesperança se alimenta. E ela não deixa sobrar nada, lambe o prato.
A gente não nota a desesperança chegando. É uma decepçãozinha aqui, uma frustraçãozinha ali, um cansaço acolá. Quando vê, somos a condição ideal de temperatura e depressão para que ela se instale. E o olhar vai ficando parado, os músculos do riso amortecem e os ombros se sacodem involuntária e desdenhosamente a cada cobrança de atitude. Tudo pesa, tudo é difícil. Vou ali na cama um pouquinho.
Quando sem sono e sem sonhos, o desesperançoso assiste alguma coisa boba na TV. Nada com final feliz, eles já nem divertem. Os finais felizes foram as primeiras drogas, as portas de entrada para as ambições vazias, para os tantos projetos inacabados. Queremos assistir algo com um final aceitável, ou que seja uma grande desgraça, que estimula um sorrisinho discreto e maldoso.
O desesperançoso às vezes assiste também a realidade. Tenta garimpar nela uma saída dessa condição. Mas, os cadáveres de sempre, a corrupção de sempre, os discursos oportunistas e os ódios de sempre, são grandes montanhas de entulho sobre esgotadas jazidas de algo que um dia brilhou. Se ninguém faz a manutenção, o entulho sempre volta e acumula. Às vezes bate uma ponta de desespero, como aquele, por agradecer os conselhos inúteis. A diferença entre o desespero e a desesperança é que ele nos faz espernear e se debater, já ela, apenas nos faz aceitar bovinamente o abate.
Aqueles conselhos podem não ser inúteis, afinal. Se há algum desespero há o esperneio e ele pode ser instintivo e patético, mas é o movimento possível para tentar uma sobrevida.

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