Vesti minha melhor paciência e fui ao banco. Tento fazer tudo via internet, mas o mundo conspira para que eu entre em uma fila. A fila teve um upgrade tecnológico nos últimos anos. Agora temos máquinas de impressão de senhas. Algumas quase ninguém entende e precisam de um tutor humano para apertar os botões na ordem certa. Quando acertamos a sequência de teclas, somos premiados com um bilhetinho com caracteres e números. Depois, telas de led bipam e chamam os felizes donos dos bilhetinhos pelas suas senhas. Ficaremos os próximos longos minutos com a cabeça no movimento bilhetinho/tela/celular, tela/bilhetinho/celular, tipo um jogo paranóico de bingo. A cada BIP, todas as cabeças se voltam para o monitor, não importa se tem 318 números na tua frente, tu sempre vai olhar para a maldita tela. Somos como cachorrinhos adestrados: assobiou, olhou. Antigamente os coitados dos caixas passavam horas gritando “PRÓXIMO!” Lembro que os mais discretos faziam um sinalzinho com a mão chamando o cliente, que ficava em constante contato visual com eles. Quanto mais tempo de pé, mais desesperador era aquele olhar. Quando um dos caixas saía para ir ao banheiro ou almoçar, todos os olhares o fulminavam. Imagino a carga negativa queimando as costas do coitado. Sabe aquele biombo que colocaram entre a plebe e os caixas? No começo pensei que ele era para a discrição dos clientes sacando suas fortunas ou implorando aumento no cheque especial, mas não, é um escudo contra os olhares fulminantes. Hoje os funcionários podem fazer suas necessidades e almoçar sem terem diarréia ou indigestão induzidas pelo ódio da fila.
A fila também teve um incremento ergonômico. Confortáveis cadeiras acomodam bundas impacientes e preocupadas com o saldo e outras que estão ali de boa, curtindo aquele tempo perdido. Os tranquilos normalmente são aposentados que adoram puxar assunto com os mais atucanados.
– E esse tempo? Os passarinho tão voando baixo, vem temporal aí.
– Pois é! Pelo jeito, vem sim! – responde o atucanado, sacudindo nervosamente um maço de boletos nas mãos suadas. Mais um BIP, o atucanado olha pra tela, pro bilhetinho e volta pro celular. O aposentado chega mais perto:
– O senhor faz o quê?
Eu até paro de olhar celular/tela/bilhetinho, para apreciar a cena.
– Eu sou designer – diz o cara. E eu me acomodo na cadeira, pena que não servem pipoca.
– Dizáin…
– “É tipo propaganda, eu faço propaganda!” – agora mãos e pés sacodem impacientemente, o bilhetinho está tão suado que nem deve dar mais pra ler a senha.
– Ah! O senhor faz os desenho, os emblema das firma.
– Isso! minha especialidade são os EMBLEMA!
BIP! – tela/bilhetinho/olhar de ódio pro velho/celular.
– Pois eu tô aposentado, mas tá dificil, o dinheiro não dá mais pra nada… Esse negócio de dizáin dá dinheiro?”
Merda! O último BIP era a minha senha, vou ter que correr pra trás do biombo.

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