Aqui perdemos apenas a energia artificial. Lá fora, tantos perderam tanto. Ter paciência, nesses casos, é um ato de solidariedade. Quem precisa menos deve mover-se para o fim da fila.
Lanternas nunca têm bateria suficiente. São poucos os paranóicos com seus kits de emergência sempre prontos e organizados. Os leds dos celulares são uma grande sacada, serviram o bom propósito de encontrar seus parentes distantes, as velas e os fósforos. De onde vieram velas brancas e vermelhas, não sei, mas eram bem vindas.
Estamos completamente viciados e dependentes de tomadas. Não imaginava ter tão poucos palitos de fósforo em casa. Talvez eu deva entrar para o clube dos paranóicos e providenciar uma luzes de emergência para próximos eventos. Os bips intermitentes dos nobreaks, anunciando suas mortes, lembravam que baterias sempre irão necessitar da energia mãe. Também nós, temos que recarregar periodicamente as energias em alguma crença ou propósito.
As chamas tremeluzentes das velas me levaram à infância e pintaram outra atmosfera na casa. Estava confortável a bolha de luz cálida e quente. Menos distração, mais reflexão. Até a roda de chimarrão ficou mais íntima e falante.
Da pequena tela que é nossa janela de bolso para o mundo, trabalhava um pouco e via com tristeza, estragos e perdas. Às vezes tudo que temos vai com o vento.
As duas velas lado a lado, não se importavam com suas diferenças de cor, apenas desgastavam-se igualmente oferecendo luz, enquanto nas redes, pessoas multicoloridas desgastavam-se trocando o que mais tinham de sombrio.
A bateria do celular foi a primeira morte tecnológica, em seguida os nobreaks deram seus últimos suspiros.
A luz só iria ressuscitar no terceiro dia, geladeiras já não conseguiam segurar hemorragias. Tocos de velas brotavam em pires sobre os móveis. O notebook sacrificou-se, doando sua última energia ao celular garantindo possibilidade de ligações emergenciais. Tudo administrável e tranquilo aqui dentro. Lá fora, sirenes e movimentações de quem não teve tanta sorte, mas que recarregam heroicamente suas baterias para superar e continuar. Mais uma olhada nas redes e vi que nem tudo eram trevas, haviam focos de luz solidária. A escuridão acende os que têm luz própria e estes se preservam quando o excesso de luminosidade está cegando multidões.
Desconfio que era isso que o vento queria. Nos testar para ver se temos ainda alguma humanidade.

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