Não! O tempo não está encolhendo. Só estamos jogando mais coisas dentro dele. Para os gregos, Cronos era o deus do tempo. Ele tinha esse hábito… de comer os próprios filhos. Era uma representação adequada, já que tudo é criado no tempo e nada resiste a ele. “O tempo inexpugnável que rege os destinos e a tudo devora.” Contam as escrituras que Cronos aceitou o pedido de sua mãe, Gaia, para se tornar senhor do céu. Para tanto, teve que castrar seu pai com um golpe de foice. Mais tarde, Cronos se casou com a própria irmã, Reia. Tiveram seis filhos. Cronos engoliu cinco, por medo de ser destronado. Só Zeus não foi comido. Reia deu ao marido glutão uma pedra enrolada em panos no lugar do suculento Zeuszinho. Como se nota, amor familiar, paladar, mastigação e escrotos paternos não eram valores importantes na época.
Ao nosso tempo, já não cabem mais as imagens de um senhor idoso de barbas brancas comedor de criancinhas ou uma serpente de três cabeças, como era visto por povos ancestrais. Nosso tempo está mais para uma gaveta. Vamos enfiando coisas lá dentro até que ela não feche mais. Uma gaveta aberta é inadmissível, transborda segredos desagradáveis, inclusive para o próprio dono. Gavetas também escondem nossa bagunça. Assim como o tempo.
Precisando achar um cantinho para o carro novo na gaveta? Tudo bem, vamos jogar fora umas horas de sono que cabe. Mais dinheiro? OK. É só descartar aqueles momentos com os filhos e amigos que sobra um bom espaço para mais trabalho e graninha extra. E se precisar se exibir mais nas redes sociais, tranquilo, ponha no lixo aquela caminhada de final de tarde, já estava ficando sem graça mesmo.
Andei falando com Cronos. Ele me olhou de um jeito estranho, mas logo viu que eu não era filho dele, daí o papo rolou amigável. Precisava tirar do velhote alguma sabedoria para viver melhor, antes que me engula. Cronos me disse que os mortais têm mania de criar prisões para eles mesmos. Querem grandes castelos, cavalos velozes, criados, ouro, terras e poder. Conquistar tudo isso toma tempo e mais tempo ainda é gasto na manutenção.
Mas então o segredo é não ter posses que nos aprisionam? – perguntei ao velho babão.
Não! – disse ele com um sorriso maroto. A liberdade também aprisiona. Sem um teto, tu serás perseguido e castigado pelos demônios das intempéries. Sem nenhum ouro, tu não poderás comprar víveres, viajar e apreciar os prazeres mundanos, que são muitos. Sem uma boa montaria, não chegarás tão longe. Sem nada, não serás livre, mas preso aos limites do teu corpo. O segredo é manter equilíbrio, e o segredo do equilíbrio está no tamanho dos teus desejos e posses. O tanto que possa carregar, sem te esmagar.
Velho desgraçado! Disse tudo e disse nada. Por mais que eu lhe pedisse uma fórmula, ele só sacudia os ombros e cutucava minha cabeça com aquele dedo torto. Não é fácil.
Mas difícil mesmo foi explicar para minha esposa, que me flagrou conversando aos berros com minha gaveta de bagunças.

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