Outro dia, um velho amigo deu-me o prazer de me fazer uma visita. Tomamos uma modesta cerveja e falamos de coisas antigas – mulheres que brilharam outrora. Ele tivera um caso. Não foi certo, não foi honesto, foi traição. Foi bom.
Esta era sua maior culpa. Deveria ter sido ruim, ou pelo menos normal. Mas aquela maldita vontade de querer mais o estava matando. Devia decidir se acabava com o caso ou com o casamento. Ou um dos dois, ou ele. Nessas coisas de amor e sexo, uma morte sempre é necessária. Como decidir entre o errado e o que não está dando certo? – questionavam aqueles olhos úmidos, que todo esse tempo não conseguiu secar.
Como chegara a este ponto? Colocar em risco suas certezas adultas por incertezas adolescentes? Que irresponsabilidade! Que delícia! Aqueles encontros furtivos em escadas e elevadores, só por um beijo que durava dois andares, a ginástica social necessária para as tardes tórridas que deixavam estômagos gelados de medo e desejo. Medo e desejo, esses nunca se traíram.
A vida é engraçada. Às vezes, ou você trai alguém, ou trai os seus desejos. De qualquer forma, se é um traidor. Só que desejos não fazem fiasco, não são sociais, não pedem divórcio e não levam metade de tudo. Desejos são cornos mansos por excelência.
A segunda ou terceira modesta cerveja já levava meu amigo ao altar dos filósofos, de onde se faz o inventário dos erros e acertos da vida. Tentando definir uma fórmula certeira para o resto dos dias, ele se dizia experiente.
Disse-lhe que já tive muitas convicções, elas serviram apenas para mostrar quando estava errando. Certezas não são alicerces, são ferramentas de uma caixa de utensílios cada vez mais difícil de carregar. Às vezes, só queremos errar de novo em vez de consertar os vazamentos da vida. Ele riu, a cerveja também me faz filósofo. E por falar em vazamento, pediu licença para ir ao banheiro. Voltou já indo, despediu-se pois a esposa o esperava. Perguntei se subiria ao seu apartamento pela escada ou de elevador. Riu novamente. – “Escadas! O tempo nelas é mais longo, têm mais privacidade e não despencam.”  Mas sempre se pode tropeçar num degrau, pensei, já abraçando-o.
Gosto desses encontros com meu amigo, ele sempre foi mais inconsequente e eu comedido. As visitas periódicas, um na vida do outro, ajudam a manter o equilíbrio de ambos. No dia seguinte, ele parecia feliz, apesar da cara de ressaca. Pude observar enquanto escovava os dentes.

* Texto para a coletânea “Há de ti, Rubem Braga”, homenageando o cronista, que será lançada na Feira do Livro de Porto Alegre. Baseado na crônica “O Telefone”.

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