Era uma vez, uma manhã fria, o pó de café aguardava e o banho quente lavaria sua essência. Lá fora estavam jogados os acontecimentos de ontem, em páginas enroladas em forma de canudo amassado. O peso daquelas notícias jogadas dobrarou algumas flores do canteiro. Uma não resistiu, seu caule foi quebrado pelo choque com o cotidiano. É a realidade de todas as manhãs, no chão do pátio. Temos que nos dobrar, colhê-la e a levar para a mesa do café. A principal refeição.
Mas aquele dia foi diferente. Ao me colocar na posição nobre e ereta, já com o canudo na mão, recebi o toque de uma estranha brisa morna no rosto. Aquela brisa não era daquela manhã. Ela não tinha a temperatura, ela não tinha o propósito, ela não tinha a velocidade, não tinha nada com aquele dia frio que se anunciava. Ela era uma afronta, uma ousadia. Então me vi petrificado. Com a realidade enrolada na mão e alguma coisa metafísica e morna me tocando o rosto, parei no pátio. O que fazer? Seguir o devir diário da sobrevivência e das notícias impressas em papel, ou seguir os desígnios daquela brisa? Não consegui largar o jornal nem saber o que fazer com a brisa. Ao mesmo tempo, me sentia um idiota, parado no pátio, pensando num ar quente que poderia ter vindo da chaminé do fogão a lenha do vizinho, como sendo um chamado místico para algo maior. Mas, se havia em mim a voz de um chamado maior, por que a brisa deveria ser desimportante, só  por vir de uma chaminé de fogão a lenha de vizinho? A inspiração vem do inesperado. Mas o caso é que eu estava ali, com o jornal na mão e a brisa na cara, e cada um me puxava para um pensamento, um destino diferente. A brisa queria que eu ganhasse o mundo, que abandonasse tudo e fosse viver como o vento, incomodando e trocando coisas de lugar. Mas aí pensei: É legal viver como o vento, mas não viver de vento.
O jornal queimava na minha mão, argumentando que a realidade é implacável e que o destino trágico dos seguidores de vento ele já havia noticiado inúmeras vezes. Para mim, aquele momento durou horas, mas a cafeteira me revelou, com seu aroma, que foi coisa de minuto. Ponto pra realidade. O pó de café já havia sangrado sua essência, eu deveria me entregar ao ritual sagrado de bebê-la. Decidi abandonar o vento. Abri as páginas monocromáticas sobre a mesa de fórmica azul e li notícias que não estimulavam ninguém a sair de casa. Dei minha energia pra realidade, segui o destino dos homens de classe média e continuei ganhando a sobrevivência em troca de trabalho. Mas aquela brisa morna…Faz mais de 30 anos que ela me tocou, e ainda a sinto.  Hoje, estou com o jornal enrolado nas mãos e me ponho ereto. Quero senti-la, mas ela não vem. Ela não sopra mais lá fora. Onde estão os vizinhos com seus fogos matinais místicos? Aquela brisa nunca mais me visitou, mas nunca saiu de mim.

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