O clássico “Moby Dick” foi inspirado em um ataque real de um cachalote ao navio baleeiro Essex, em 1820, causando seu naufrágio e deixando homens à deriva durante meses. A fome e o desespero os levaram ao canibalismo. No romance escrito por Herman Melville, os marujos são motivados a lançarem-se ao mar por três anos visando lucro gerado pela gordura de baleia. A motivação do capitão Ahab é outra: ódio e vingança do cachalote que arrancara sua perna. Como o capitão Ahab manteria homens brutos confinados em um navio por anos? Como os impediria de se matarem? Como os induziria a enfrentar um animal considerado um monstro, em vez de evitá-lo? Fácil. Criando a ameaça, o inimigo maior que eles próprios. Moby Dick uniu diferenças.
Aníbal foi o general cartaginês responsável por uma das maiores façanhas militares da Antiguidade. Com um exército que incluía milhares de mercenários, cavalos e elefantes, atravessou os Alpes e desafiou Roma às portas de seu império. A empreitada durou 10 anos. Como Aníbal manteve um exército multirracial, com idiomas diferentes nas tribos que o formavam, lutando e marchando por montes nevados durante uma década? Como se manteve motivado e motivou seus soldados a passar por agruras e ter a morte como rotina?
“Juro que enquanto a idade me permita […] empregarei o fogo e o ferro para romper o destino de Roma.”
Eis o inimigo motivador de Aníbal, o mal maior a ser destruído.
Na história recente, comunistas reuniram milhões de indivíduos para derrotar o demônio do imperialismo. Outros milhões foram reunidos sob a bandeira do imperialismo para lutar contra monstros comunistas.
O terrorismo arrebanha legiões de mártires motivados pela luta santa contra os infiéis. O mesmo terrorismo estimula outras legiões a combatê-lo e definir quem é a etnia-monstro da vez. As ameaças são reais, mas também são bem convenientes para criar discursos arrebatadores de radicalismo e criadores de mitos. As primeiras vítimas são o bom senso e o pensamento crítico. No curral dos discursos fáceis, muitos são levados ao abatedouro pelos próprios líderes.
Atualmente, os inimigos são oferecidos no varejo, estão em todas as esquinas e bancas. Estratégia eficiente: estimular a briga entre “as moscas da feira” enquanto rouba-se no atacado.
O escritor italiano Giovanni Papini comenta que há um certo orgulho arrogante em ter inimigos. Acumular desafetos é tido como um troféu para quem se auto define como pessoa de sucesso e/ou de “opiniões fortes”.
Papini escreve que “os defensores da utilidade de inimigos esquecem que essas vantagens são pagas por um preço elevado e só constituem vantagens enquanto somos, e não sabemos ser, os nossos próprios inimigos.
Todo o tempo e esforços que se consomem para nos precavermos contra quem nos odeia, e defendermo-nos, seria muito mais bem empregado nas alegrias da paz e caridade.”
Estamos no mar, cercados por monstros. Mesmo assim, queimamos nosso próprio navio e nos colocamos à deriva sobre destroços. Em breve, nos canibalizaremos.

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