Eu li aquela crônica e logo no início algo me impressionou. “Julho, 1933”. Meu pai tinha 3 anos, pensei. O texto falava de morte, de quase morte, na verdade. Segunda chance. O texto também falava de uma senhora, de uma bela senhora, cuja visão era a própria vida. Meu pai e minha mãe. Não conseguia tirar da cabeça o ano e lembrar de meu pai. E não era nem o ano em que ele nasceu, era o ano dos seus três anos. Mas tudo levava à morte e à vida, que é tudo que temos e tudo que importa, na verdade.
O quanto pode ser impressionante estar aqui, e agora.
Pare! Congele o momento em que você está. Dê uma olhada à sua volta, avalie seu entorno, os móveis, as pessoas lá fora. Amplie a visão imaginando seu bairro, sua cidade e você, no centro desse raio de visão. Vá mais alto, imagine seu país, seu continente, seu planeta, e você ali, um ponto microscópico numa enorme esfera. Depois de todas as histórias, tragédias, amores, guerras, mortes e heroísmos já vividos nessa bola gigante, aí está você, lendo essa crônica débil. Agora vá para o sistema solar, para a galáxia, para o universo. Você já não existe nessa proporção. Agora volte na velocidade da luz e olhe de novo a sala, os móveis, os cachorros, gatos, os carros e você, aí e agora. Não é impressionante?
Eu acho enlouquecedor estar aqui e agora, tendo a consciência do tempo e do espaço. E dentro de cada carro, empilhados em ônibus e edifícios, acima de cada par de pernas estão cabeças, milhões delas perambulando na grande bola. O que pensam? Como podem não estar paradas, embasbacadas pensando no impressionante aqui e agora?
Tenho certeza que o cronista, lá em 1933, tenha parado para pensar no seu lá e então, e tenha voltado feliz para sua segunda chance e para a bela senhora. E meu pai e minha mãe, que não escreviam nem liam crônicas, tampouco tinham ampla noção de mundo, anos mais tarde, é bem possível, pensaram, do seu jeito, nos seus lás e entãos. Talvez, ao pegar no colo cada filho pela primeira vez, nas suas orações, talvez no derradeiro momento de suas partidas.
Eu gostaria de pensar menos no aqui e agora, gostaria de me impressionar menos com eles. O bom é que eu sempre volto para o mundo dos caminhantes que não param para se impressionar. Às vezes, é bem difícil, confesso, mas sempre tem alguém para dar uma sacudida e fazer o tempo pegar no tranco. Sempre que volto é uma segunda chance para ver e amar as coisas que valem a pena. Lá, no aqui e agora, a vista é espetacular, mas é bem solitário.

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