É um dia normal, desses que passam apressados pela vida. O homem viu a floricultura, era estranhamente colorida na paisagem cinza. Pensou há quanto tempo não levava flores para sua amada. Pensou se ainda seria amada, depois de duas décadas de rotina. Pediu uma única rosa vermelha, dessas que vem em um cone de plástico transparente e barulhento. A rosa vem acompanhada de mosquitinhos, não os insetos, mas as minúsculas flores que batizaram com este nome infeliz. Poderiam ser besourinhos. A florista veste um blusão roxo leve. Ali é frio, o calor do asfalto não se atreve no meio de tantas plantas e mini cascatas movidas a silenciosos motores elétricos.

A florista é simpática, mas tem um rosto cadavérico. O homem pensa que se levam flores mortas a velórios e imagina se seria apropriado levar uma flor morta para um amor que ainda respira. São difíceis as decisões românticas para quem não é versado nos romantismos. O homem pensa que poderia aprender a dançar para agradar a esposa, ela sempre reclamou de seus quadris enrijecidos pela vergonha. Mas aprender a dançar com esta idade? Como saber se está sendo romântico ou ridículo? Alguém já deveria ter escrito um manual sobre o tema. “Todo mundo tem umas coisas românticas. Mas na minha idade ninguém é realmente romântico. A menos que seja palerma.”*

Ele chegará em casa e entregará a flor, não saberá o que dizer, apenas sorrirá. A mulher irá se surpreender e dirá algo irônico. Talvez ela se aproxime e lhe dê um beijo protocolar. Ele terá que controlar o ímpeto de apalpar duas vezes seguidas uma das nádegas e falar ao ouvido: NhéNhé! É difícil controlar hábitos fixados há duas décadas, ainda mais para um homem que não sabe ser sexy, só vulgar.

Então chegará a hora da janta, a filha mais nova comerá usando fones de ouvido, na TV as notícias serão sobre corrupção e violência. O cachorro ficará insistindo para ganhar um petisco, a filha mais velha comerá um lanche na rua com o namorado. A rosa vermelha e os mosquitinhos estarão sobre a mesa, posicionada na cabeceira da bandeja que ostenta uma carne morta.

O homem pensa na vida que lhe resta enquanto caminha de volta ao cenário cinza. Na rua, as pessoas parecem estar muito ocupadas para serem alegres. No vagão do metrô, pode sentir respirações que confirmam a presença de vidas. Vagões e elevadores são locais onde as cidades mais aproximam as pessoas. No rosto da jovem senhora à sua frente, ele percebe uma lágrima tímida. Oferece-lhe a rosa e o sorriso. Ela devolve um longo e silencioso abraço.
Enquanto a porta do vagão se abre o homem pode ouvir uma voz se afastando:

– Viu, Reginaldo! Tu poderia aprender com aquele senhor a ser um pouco mais romântico.
*Rubem Braga na crônica “Visita de uma senhora do bairro”

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