MMário Místico acorda às 4h44. Vê o anjo da morte aos pés da cama. Desesperado, negocia um dia a mais de vida. A morte tem uma condição: ele deve suicidar-se até a meia noite do dia seguinte ou ela levará, de forma trágica, alguém que ele ama. Acorda assustado. Foi sonho ou realidade?
Pela manhã, como sempre, sai correndo sem dar atenção à família. Vai direto ao consultório de Carla Cartomante, conselheira espiritual. No tarot cai a carta “o enforcado”. Nas runas: “sacrifício”. Ele desespera. Carla faz uma sessão de reiki. No horóscopo: “decisōes difíceis”.
Todos estes anos trabalhando 14 horas por dia, agora estava pensando em aproveitar a vida.
– Como não previ isso? Meus guias espirituais, por que não me alertaram?
Relembra seu passado, percebe sinais. Faz um cálculo numerológico nas bordas da página 14 do jornal.
– Estava tudo lá, me distraí ganhando a vida e esqueci de viver.
Para espanto da esposa e filhos, Mário chega cedo. Tirou o resto do dia de folga e quer curtir a família, comprou um novo vídeo-game. O filhos ficam radiantes, a esposa atônita.
– E a escola?
– Hoje não, estou com saudade dos meus amores.
Passam horas maravilhosas, assistem filme, jogam, fazem piquenique no pátio, divertem-se na piscina.
Os filhos cansados e felizes dormem cedo. O casal faz amor como há muito não faziam. Ela dorme. Ele sai da cama silenciosamente e começa a escrever cartas.
Para a esposa, pede desculpas pela ausência e pelo que está por fazer, não espera que ela entenda mas que o perdoe. Lembra quando se conheceram, o nascimento dos filhos, os momentos que foram sendo afogados pelo dia a dia.
Para a irmã, pede perdão. O ódio de 4 anos é estúpido.
Para seu ex-sócio confessa a jogada que fez para tirá-lo do negócio. Assina um cheque com valor compensatório.
Para sua conselheira espiritual, agradece o esforço em colocá-lo no caminho do bem.
Admite que foi inescrupuloso e cruel em muitos momentos. Sua busca pelo místico foi uma tentativa de justificar erros. Entende agora o que é ser espiritualizado, ironicamente, na hora de sua partida.
Abre a gaveta, carrega o revólver. Não pode fazer isso em casa. No caminho para a garagem, vê na cozinha a Morte, tomando café.
– Veio assistir? Está se divertindo? Se eu não fosse fazer isso, quem você levaria? Um dos meus filhos? Seria atropelamento? Assalto? Ou uma tragédia aqui em casa?
Mário chora desesperadamente.
– Acalme-se! – diz a Morte.
Mário ri histericamente.
– Você já está morto.
– Como é? Então “O Além” é minha cozinha?
– Nas últimas 24 horas você matou aquele Mário de anteontem.
– Mas então…
– Não me deves nada. Adeus, por enquanto.
Mário desfalece.
Ao acordar, derruba a xícara com resto de café. Volta para a cama. Acorda cedo. Tudo que quer fazer está nas cartas. Sente-se renascido.

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