Poucas páginas da história do Brasil são tão cruéis quanto o tratamento oferecido aos nossos doentes mentais. Por décadas e mais décadas, as pessoas foram segregadas das outras por serem diferentes. Nem sempre elas tinham realmente alguma enfermidade. Há relatos de casos em que elas simplesmente pensavam diferente e, por isso, “mereciam” pagar com exclusão. E mesmo as que sofriam de alguma doença mental, ao invés de receber atendimento, eram apenas abandonadas em instituições que, por vezes, submetia-as a tratamento análogo à tortura.
A revolta e a vitória dos profissionais da psiquiatria frente a esse absurdo é ainda muito recente, cerca de 30 anos. As marcas desse passado estão tão presentes que ainda há temor por procurar ajuda psiquiátrica e receber esse tipo de tratamento. Mais do que isso, o preconceito ao doente mental ainda impera. No caderno Ibiá Saúde desse final de semana, mostramos a realidade atual no atendimento em saúde mental, hoje realizado em alas dos hospitais gerais e onde é priorizada a inclusão e não mais a institucionalização dos pacientes.
É preciso, porém, avaliar os resultados da luta antimanicomial e verificar por quais avanços devemos combater atualmente. Será que a rede de Centros de Atenção Psicossocial (Caps) é suficiente? Não. Porque eles não existem no número adequado. Como pode um paciente grave daqui, que precisa viver numa casa abrigo, com atendimento 24h, precisar ser encaminhado para Canoas ou Porto Alegre porque o Vale do Caí não dispõe de nenhuma instituição desse tipo? Temos sim que festejar o fim dos cruéis manicômios, mas não podemos fechar os olhos aos desafios atuais.

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