Da sua cadeira de cobrador, Flávio observava todos os dias o jovem de vestes simples e barba e cabelo por fazer entrar no ônibus cedo pela manhã, na primeira parada da linha, e ficar praticamente todo o dia sentado num dos bancos ou em pé. Ele descia algumas vezes, mas no caminho de volta o sujeito sempre estava pronto para subir novamente na condução dirigida por Adroaldo. Chamava a atenção o fato de que ele escolhia sempre bancos preferenciais e, uma vez que o ônibus ficava cheio, passava a oferecer o assento para idosos e demais pessoas que tinham o direito de usá-lo. Feito isso, ficava conversando com a pessoa para a qual havia cedido o lugar.
– Ele é um louco depravado.
Essa havia sido a sentença de Adroaldo. O experiente motorista sabia da história de um homem que tinha atitude semelhante. O tal maníaco, na década de 80, tinha seguido jovens estudantes para assediá-las após as ficar observando no ônibus.
– Lembro como se fosse ontem – dizia o motorista. – O sujeito foi pego por um grupo de pais que se reuniu para proteger as filhas. Só não morreu na hora porque a polícia chegou para enfiar ele no xadrez. Acabou se matando na delegacia mesmo – contava entre uma parada e outra.
Adroaldo jurava que o homem era um proeminente empresário da época. Flávio tinha suas dúvidas e também não aceitava o veredito do motorista sobre o passageiro diário deles. Numa quinta-feira chuvosa e fria – daquelas que fazem os mais velhos não quererem sair de casa porque no dia anterior um osso, uma cicatriz ou uma junta havia doído, já prevendo a chuva e o frio do dia seguinte -, o cobrador teve a oportunidade de dissipar suas dúvidas. O jovem, como sempre, havia embarcado na primeira parada e sentado num banco preferencial. Como o movimento estava baixo, Flávio puxou conversa com ele.
– Chuvinha ruim, hein?
– É a chuva sempre traz problemas. – disse o homem após parecer surpreso por alguém ter falado com ele.
– Meu nome é Flávio. Sou cobrador dessa linha.
– Eu sei. Está escrito no seu crachá. – respondeu o jovem. – Meu nome é Paulo.
– Prazer, Paulo! – respondeu Flávio com entusiasmo e depois ficou sério: – Posso lhe fazer uma pergunta?
Paulo se remexeu no banco e viu o motorista o observar pelo retrovisor. No ônibus, apenas alguns estudantes faziam barulho no fundo da condução.
– Pode – respondeu finalmente o jovem.
– Venho observado você faz meses. Todos os dias, você pega o ônibus na primeira parada, senta num assento preferencial e depois o cede para alguém que tem direito. Feito isso, fica conversando com essa pessoa. Por quê?
Paulo deu um sorriso triste:
– Sou morador de rua. Normalmente as pessoas não recebem muito bem a gente que vive na rua. Mas aqui dentro eu sou só mais um passageiro e, ao ceder lugar para os que têm direito, passo a ser uma pessoa educada e com a qual os idosos e gestantes gostam de conversar, apesar da minha aparência. Fazer isso é uma forma de eu me sentir mais humano. É neste ônibus que tenho minha dose diária de empatia.

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