É necessário enxergar o mundo com a complexidade que ele tem. As simplificações são perigosas, apesar de serem confortantes. Quando se deseja o Regime militar, deseja-se a eliminação física do outro, daqueles que pensam e que agem de forma diferente.
Quando vejo pessoas em Montenegro, desfilando pelas ruas com faixas pedindo intervenção militar, como professor de História, sinto-me no dever de rememorar alguns fatos da recente vida política do nosso País.
Uma intervenção militar sempre começa com um crime: ignora-se a Constituição. Por si só, este fato revela algo de inescrupuloso. Todavia, é só o começo. Censura, tortura, mortes e desaparecimento de opositores completam um cardápio indigesto para todos que prezam pela possibilidade de pensar e falar livremente.
Também é necessário lembrar que o Regime Militar no Brasil foi o responsável pelo aprofundamento de um dos maiores problemas que temos até hoje: a concentração de renda. Esta, foi um dos resultados do chamado “milagre brasileiro”, com o ministro Delfim Neto à frente, defendendo que era necessário “fazer o bolo crescer para depois dividi-lo”. Com isso, gerou-se um crescimento anual do PIB de 11,2% no período de 1969-1973, porém, poucos brasileiros foram beneficiados com essa política: na verdade, o bolo acabou comido por poucos!
Aos trabalhadores, restou o arrocho salarial com reajustes que não acompanhavam a inflação, por sinal, esta, no último governo do Regime militar, do general Figueiredo, deu um salto de 40,8 % em 1979, para 223,8% em 1984, e o próprio PIB apresentou queda brutal no triênio de 1981-1983 para 1,6%.
E para aqueles que esqueceram, ou faltaram às aulas de História, a dívida externa brasileira pulou de 43 bilhões de dólares em 1978, para 91 bilhões em 1984. Este foi o Brasil que os militares devolveram para a democracia (dados do historiador Boris Fausto, em História do Brasil).
O que eles não devolveram foram os corpos das pessoas torturadas e mortas em seus porões. A simplificação confortante daqueles que desejaram um regime de violência, capaz de eliminar a complexidade dos debates, das ideias e da democracia, gerou cicatrizes profundas em nossa sociedade, do ponto de vista econômico, social e político.
Ditadura, nunca mais!

Rodrigo Dias
Professor

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