Em tempos regressivos e de intolerância, sempre é bom revisitar os pensadores clássicos, sobretudo aqueles que consideramos nossas fontes da vida. Nos quais, mal ou bem, as gotinhas de compreensão e sabedoria que ali bebemos e alimentamos nosso espírito, servem, ao menos, para compreendermos os pensamentos e as condutas do nosso tempo, sobretudo este certo pânico ético-moral que ele encerra.
Onde, de maneira recorrente, a sociedade é dividida e colocada de forma oposta, na maioria das vezes desprovida de conteúdo e fundamentação. Para dar concretude a esta premissa, recorro à filósofa alemã de ascendência judaica Hanah Arendt que, em “Origens do Totalitarismo”, mostra como o Velho Continente permitiu o surgimento da máquina mortífera do holocausto e em “Eichmann em Jerusalém” trata da banalização da irracionalidade a partir do julgamento de um criminoso nazista.
São fundamentais reflexões filosóficas que fazia para entender seu tempo, “o breve século XX”, e principalmente para compreender “como os povos e os indivíduos puderam aderir à ideia do genocídio; como o pacto social à época foi definitivamente quebrado; como a hipótese de uma Sociedade das Nações caiu em ruínas e como aceitamos o inaceitável: a inutilidade da existência, a sensação de estar sobrando e a recusa do outro”. É deste legado, atualizado ao nosso tempo e no momento que o mundo e as relações em sociedade estão passando, que levo e exercito no cotidiano a grande lição: divergências e diferenças nunca foram problemas; não saber tratá-las ou enfrentá-las, sim, são!
Já dizia um grande pensador, que “a história se repete como tragédia ou farsa”. O particularismo e o narcisismo das novas gerações não conseguem enxergar a sociedade para além dos seus grupos de relações, encerrados permanentemente em meio a uma certa histeria conservadora, agravada pela brutal disseminação virtual que Arendt sequer imaginou. Isto claramente remete para uma crise de valores, em que a tolerância, igualdade e generosidade, aquele fundamental legado iluminista que chegou até nós, e que produziu e reproduziu nossas grandes utopias, parece mesmo ter perdido espaço para o arbitrário veto ao direito de expressão, expresso permanente em repetidos atos hostis frente a opiniões e condutas divergentes.
Acentua-se, pois, aquilo que Arend refere acima acerca da “ideia do inimigo político como sendo o outro”. Daí os ritos corriqueiros de escracho, de intolerância e até de agressões, seja nas ruas, na mídia ou no ciberespaço. Reforça-se assim, portanto, o “nonsense” de que divergências são problemas, quando, na verdade, a real dificuldade é mesmo não saber enfrentá-las. Pois constituem um valor imprescindível, sobretudo em uma democracia substantiva.

Adão Villaverde
Deputado estadual (PT)

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