Perdoa meus olhos tristes, mas é com eles que consigo contar a minha história. Diferente de ti, não sei falar, embora sejamos extremamente parecidos. Geneticamente, quero dizer. Tão parecidos que até algumas doenças acometem nós dois.
Tenho medo de ti. Não de ti, mas da tua raça, do que vocês fazem com a minha. Não consigo entender direito; tem gente que vem aqui na minha casa e tira fotos minhas, estuda minha dieta, intimidade, personalidade. Alguns vêm só pra ver se estou bem. Eles gostam de mim. Há outros que não gostam. Atiram pedras, gritam e dão pauladas nos meus, em mim, nos parecidos comigo. Não quero ser injusto contigo, mas a humanidade está sendo injusta comigo.
Eu moro aqui. Vivo minha vida simples; minhas ambições são comer, ficar com meu bando e perpetuar a minha espécie. Eu não existo para servir a nenhum propósito sem ser à minha própria natureza; não sou ameaça, não sou mau, não sou o vilão da história. Não, não tenho culpa.
Tem muitas pessoas matando a minha família porque nós estamos morrendo de febre amarela. Sofremos com uma doença viral grave, mas não temos hospital, medicamentos ou vacina… Deixamos a natureza seguir seu curso, porque assim é a vida aqui na floresta. Há esses mosquitos, que de vez em quando picam a gente e não acontece nada, mas às vezes acontece. A gente pega febre amarela assim: como os seres humanos.
Eu não passo febre amarela para ti. É preciso que um mosquito infectado com o vírus pique o humano, e se ele não tiver resposta imune adequada, pode desenvolver a doença. Mesmo assim, tem gente vindo na nossa casa nos matar. Sem motivo, não me deixam viver a minha vida. E a vida é tudo o que temos. Ela importa.
Ninguém gosta de pegar febre amarela. Nem os humanos, nem nós, outros primatas. E a minha população é muito suscetível à doença. Sabia que nós que avisamos às pessoas quando o vírus está circulando no ambiente silvestre? Porque morremos facilmente quando infectados, às vezes correndo risco de extinção. Os iguais a mim são, muitas vezes, dizimados pela doença. Quando os humanos encontram macacos mortos, fazem exames e descobrem se morreram de febre amarela; se sim, então, trabalham para proteger as pessoas que vivem perto do foco. Isso faz de nós seus sentinelas; seus amigos.
É triste que a vacina não seja destinada também para nós, macacos, mas nós estamos acostumados a viver à mercê das vontades da natureza. Como todos os animais, temos nosso papel nesse mundo e ele não tem nada a ver com a humanidade; nosso papel é viver e fazer o que pudermos com a vida. Talvez seja por conta dos mandos e desmandos da natureza que nós morremos de febre amarela, mas não é a natureza que manda as pessoas nos matarem. Isso está a cargo da ignorância e do medo.
Não quero que ninguém morra de febre amarela; também não quero morrer injustiçado por conta dela. Mereço viver sem ser incomodado, na minha casa, nas florestas que habito muito antes dos humanos. Se tu puderes me ajudar nisso, seria ótimo. Se tu perpetuas o conhecimento, podes impedir que o desconhecimento seja meu algoz.
Perdoa meus olhos desconfiados, mas é só com eles que consigo me defender da humanidade. Sonho com o dia em que não precisarei mais me defender. Até lá, conto com a tua ajuda. Obrigado.

Bugio – em nome da minha espécie e dos meus outros amigos macacos.

Ana Clara Stiehl
Cronista

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