Eu não fui para a rua no último domingo. Aliás, conheço pouquíssimas pessoas que foram. Estavam agendados protestos anticorrupção e de apoio à Lava Jato nas capitais do país. Porém, sei de muita gente que protestou no dia 15 de março contra a Reforma da Previdência. Essa diferença representa muito mais do que aparenta.

Obviamente o combate à corrupção é fundamental. Ainda mais agora, quando cúpulas do governo federal e do Congresso Nacional (envolvidas até o pescoço em denúncias e delações) oferecem a redução de direitos trabalhistas. Muita gente havia retomado sua vida normal, julgando que, após a derrubada da presidente, o resto se ajeitava sozinho. Não é tão simples, tendo em vista que o problema está no sistema, não apenas nos nomes.

A PEC do Teto, que congela novos investimentos em áreas como educação e saúde públicas pelos próximos 20 anos, passou com certa facilidade. Afinal, era um tema complexo e com impactos no longo prazo. A aprovação da ampliação da terceirização legal contou com mais reclamações por parte da população que teme ver seu emprego precarizado e direitos subtraídos. Já a Reforma da Previdência tem acendido a luz amarela de muita gente. Afinal, todo mundo sabe o que é uma aposentadoria.

A situação mudou. Parte da classe média e dos mais pobres percebeu que a fatura vai cair, prioritariamente, em seu colo. Em páginas dos movimentos que se destacaram no impeachment, seguidores pertencentes criticam seus líderes por defenderem a Reforma da Previdência da forma como está no Congresso Nacional.

No dia 15 de março havia muita gente na rua. De professores das redes pública e privada, passando por estudantes do ensino médio e universitários, grupos e coletivos feministas, representantes do movimento negro, defensores da mobilidade urbana, famílias que lutam por terra e moradia até pessoas que estiveram nos protestos pela queda de Dilma e são abertamente antipetistas. A diversidade mostrava que uma parcela mais ampla da sociedade começou a entender que será diretamente afetada.

As pessoas estão mais preocupadas com seu futuro. Sabem que reformas precisam ser feitas, mas discordam da forma como a proposta está sendo discutida, ou do prazo de transição de modelo, ou da intensidade da mudança, ou das categorias privilegiadas e imunes, ou da diferença do sacrifício de pobres e ricos para manter o sistema de Seguridade Social funcionando.

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