Ele chegou a ser considerado por muitos como uma espécie de herói nacional. Quando apareceu na lista dos homens mais ricos do mundo, foi tido como empresário modelo e exemplo a ser seguido. Hoje “hospedado” em Bangu e com o cabelo raspado, Eike Batista escancara o quão promíscua é a relação entre empresários milionários e os políticos brasileiros. Muitos dos que tiraram fotos ao seu lado, das mais diferentes colorações partidárias e ideológicas, tremem agora diante da possibilidade de ele dar com a língua nos dentes.
Diferente dos tradicionais milionários discretos brasileiros, Eike Batista até destinava parte de sua fortuna a causas ecológicas, hospitais e atrações culturais. Assim, ganhou fama de benevolente e passou a receber uma avalanche de pedidos das mais diversas ordens. Curiosamente, era particularmente mão-aberta em relação ao Rio de Janeiro. No total, desembolsou quase R$ 60 milhões na campanha para a cidade sediar a Olimpíada, no programa de despoluição da Lagoa Rodrigo de Freitas e no projeto das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). Com a prisão, cai de uma vez a máscara de benfeitor.
Como mostra a Operação Eficiência, um dos desdobramentos da Lava Jato cuja etapa anterior levou à prisão o ex-governador Sérgio Cabral, o empresário adulava o Poder Executivo para obter vantagens – e vice-versa. Sai de cena o empreendedor dinâmico e emerge o operador de propina.
No auge de suas atividades empresariais, o conglomerado de Eike se espraiava pelas áreas de energia, infraestrutura, mineração, serviços e entretenimento. Por trás do heroísmo que as capas de revistas como Exame ou Época destacavam, Eike mostrava justamente uma face desconhecida do tal capitalismo à brasileira, onde empresários selecionados assumiam riscos com o dinheiro alheio.
Se não há, porém, expectativa de que uma delação de Eike possa ser tão grande quanto a de Marcelo Odebrecht e seus 77 executivos, há ao menos uma certeza: será tão profunda e impactante quanto. Razões para crer nisso não faltam. Ao longo da última década, nenhum empresário brasileiro esteve tão próximo ao poder e foi tão bajulado por ele quanto Eike Batista. Foram R$ 16 bilhões apenas em empréstimos para suas empresas, fora licenças de exploração e construção, além de lobby direto para lhe favorecer, executado por ministros de Estado.

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