Fernando Lucchese, Hospital São Francisco, cirurgia cardíaca, Santa Casa, fé e cura
No hospital São Francisco, da Santa Casa de Porto Alegre, são realizadas pesquisas relacionando a fé e a cura

O Hospital São Francisco, um dos sete que compõem o complexo da Santa Casa de Porto Alegre é dirigido pelo médico cardiologista e escritor Fernando Lucchese. Em 48 anos de profissão ele já realizou mais 100 transplantes cardíacos, além de milhares de outras cirurgias. Um dos temas em que é considerado autoridade é a relação da fé com a cura. Lucchese recebeu o Ibiá, revelou a origem da sua curiosidade sobre o tema, seus estudos e os muitos “milagres” presenciados. Confira os principais trechos.

Da onde surgiu o seu interesse em pesquisar a relação entre a fé e a saúde?
Tenho formação religiosa, fui seminarista. Mas fiquei muito tempo afastado. O grande divisor de águas foi quando, numa biblioteca, na Carolina do Norte, EUA, descobri trabalhos publicados por um sujeito chamado Harold koenig e fiquei impressionado. Fui até a bibliotecária e disse: quero falar com esse homem. Koenig é neuro-cientista, psiquiatra e chefe do departamento de estudos de espiritualidade da Duke University, uma das universidades que mais contribui nessa área. Me apresentei a ele e disse estar impressionado pelo número de trabalhos. Passei um sábado na casa dele, fizemos churrasco, ficamos amigos e ele me passou uma série de informações sobre importância da oração, mudança de resultados em cirurgias com situações de alto risco. Mostrou-me, por exemplo, o que acontece quando o médico reza junto do paciente. O que acontece com indivíduos que têm vida espiritual ativa antes de uma cirurgia cardíaca. Ele tem mais de 40 livros e 300 artigos publicados.

Ao voltar ao Brasil eu comecei a montar um grupo para estudar esse assunto e ele sempre foi o nosso tutor. Com o crescimento das pesquisas criamos o Gemca – Grupo de Estudos em Espiritualidade e Medicina Cardiovascular, hoje com sócios no Brasil todo. Durante o Congresso Brasileiro de Cardiologia (CBC), o maior da América Latina, nós fazemos sessões de debate sobre o tema. Há consistência. Estamos diante de um novo paradigma: a religiosidade interfere fortemente no transcurso da doença e no desfecho. Religiosidade e espiritualidade conseguem inibir a evolução nefasta da doença.

Fernando Lucchese, Hospital São Francisco, cirurgia cardíaca, Santa Casa, fé e cura
Fernando Lucchese, médico cardiologista, diretor do Hospital São Francisco e escritor

A ciência vem então se abrindo para essa possibilidade?
Completamente. Inclusive há quem não acreditava, colaborador aqui da área clínica. O convidei para participar de uma reunião e ele me disse “isso é ciência e eu sou obrigado a acreditar”. Transformou-se numa linha de pesquisa respeitada. Temos salas lotadas no CBC para ver os resultados das pesquisas.

Como a importância da fé à saúde é transmitida no consultório, considerando os diferentes credos?
É uma abordagem supra-religiosa. Quando um paciente vem operar comigo eu sempre pergunto se tem alguma religião ou fé. A maior parte responde que já esteve em seu pastor, padre ou centro espírita. Eles já vêm prontos porque são cirurgias de risco. “Doutor nem me fale nisso, sou agnóstico”, é raro. Houve até um caso que antes da cirurgia a pessoa avisou que não queria nenhum envolvimento religioso. Operação correu bem e, já no quarto, houve uma arritmia. Ele se apavorou, me chamou e entregou um papel com o nome de uma pessoa. Era um pastor. Eu nunca vi ateu em leito de morte. Na hora do acerto de contas o sujeito volta atrás e acredita em algo.

E como é tratada a diferença entre religiosidade e espiritualidade?
O IBGE aponta que 95% dos brasileiros acreditam em Deus, em diversas religiões. Não importa. A crença numa divindade caracteriza a espiritualidade. E a religiosidade é a manifestação pública dessa espiritualidade. Tem quem exerça a sua espiritualidade sem religião alguma. Para nós, na pesquisa, é mais fácil medir religiosidade que espiritualidade, já que está é mais pessoal e intrínseca.

A aceitação da ciência para religiosidade inclui manifestações como benzas, imposições de mãos e cirurgias espirituais?
Sim. Tudo isso está sendo estudado, de alguma forma. A imposição de mãos já tem vários estudos e a Associação Médica Espírita é muito forte e ativa. Há estudos que mostram mudanças de comportamento após uma imposição de mãos. Existe um efeito placebo – que não tem ação real – importante. É difícil separar. Tu vai na benzedeira por conta de uma verruga e ela desaparece. Foi a benza ou o ciclo vital da verruga? É difícil de confirmar. Nós temos hoje uma atitude menos castradora sobre esses procedimentos porque na história já tivemos de engolir coisas que não acreditávamos e depois foi provado que funcionava. Existem temas muito difíceis como, por exemplo, vida após a morte. Temos pesquisas com indivíduos que tiveram paradas cardíacas, relatos do que eles viram e a sensação depois que voltaram. É complexo porque não temos certeza absoluta. Mas temos de aceitar que existe uma verdade que talvez não esteja suficientemente revelada.

A fé pode ser prejudicial? Existem casos de quem abandona tratamento médico apenas para se apoiar na espiritualidade?
Isso é uma praga. O sujeito faz uma cirurgia pelo espaço, acha que está curado e não aceita o tratamento contra o seu câncer. Um ano depois ele morre. E nesse intervalo ele propagou para todos que foi o melhor que ele fez na vida. Depois, quando o câncer volta, ele encara como se fosse Deus que o penalizou. Religião não é prescrição médica, é apoio à cura da doença. Abandono de tratamento é um erro brutal e tem sido feito em função da fé.

A visitação a doentes em hospitais por parte de religiosos auxilia?
Auxilia muito. E os hospitais deveriam ter uma estrutura melhor para isso. Digo inclusive nós aqui da Santa Casa. É difícil manter um plantão de capelães, sendo o hospital tão grande. As visitas são importantes porque trazem ânimo.

Como a fé é conduzida nos casos em que o paciente vem a óbito?
Nós somos finitos e a medicina tem suas limitações. Chega um momento em que tu perde o controle da doença. Eu insisto com meus assistentes para que, no momento em que estamos perdendo um doente se faça uma oração. “Senhor, a minha ciência trouxe esse irmão até aqui. Daqui por diante eu não tenho o que fazer. Estou entregando ele nas tuas mãos”. Fiz isso muitas vezes na minha vida.

O senhor viu casos de cura quando a ciência já não apresentava saída?
Vi as duas situações. Operei uma pessoa querida, porteiro do meu edifício, em uma cirurgia que deveria ser simples. E ele morreu. É o insucesso que te mantém humilde e mostra que não pode fazer tudo. E a outra situação, em que tu está operando e surge o momento que não tem mais o que fazer. É desligar a máquina. Mas aí o coração começa a bater e o cara fica bem. São os milagres que acontecem todos os dias. Aconteceu aqui, uma pessoa ficou cinco dias com o coração parado, só na máquina. Eu considerava que não havia o que fazer. No sexto dia o coração voltou a bater. Temos que aceitar com humildade coisas que a gente desconhece.

O senhor se sente injustiçado quando o sucesso de uma cirurgia é creditado a Deus?
Não, isso é muito comum. E existe gratidão. Eu operei uma criança muito pobre. Foi preciso pagar a passagem pra família voltar pra casa, no interior do Estado. Um mês depois, estou no corredor do hospital e vem uma criança com uma laranja na mão, diz “tio, pra ti”. Foi o melhor presente. E estou sempre aberto a uma ajuda divina na hora de operar. Antes da cirurgia me concentro e peço ajuda de Deus.

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3 comentários

  1. Eu nunca vi crente em deuses com esse tipo de doença se internando em igrejas nem se submetendo apenas aos supostos poderes mágicos de um deus. Todas correm para os braços da Ciência, porque esta funciona. Seria falta de fé?

    • Leia esse artigo de novo, parece que você não entendeu muito bem. O ser humano é orgânico, não se trata doença do corpo em igrejas, o espirito sim. Se corpo e espirito não estão em harmonia, aí vem a doença. Leia melhor e tenta entender os conceitos tratados nesse artigo. E meu caro, nem sempre a ciência funciona, senão não morreríamos, mas torno a dizer, somos orgânicos e finitos. Fé e ciência, precisamos das duas, mesmo ateus e agnósticos negando isso.

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