Seu “bom dia” foi ouvido pelo motorista e respondido com a usual carranca. O cobrador, como de costume, ignorou o cumprimento. Em pé e no fundo do ônibus, reclamações e brigas antes das 6h30min eram tudo que ele ouvia dos demais espremidos. A cena se repetia no sacolejar do metrô.
Já atrasado, a cobrança do chefe é a primeira coisa que ele escuta ao entrar no escritório. Penosamente, as horas passam até o meio-dia. A comida da marmita é engolida fria, afinal os relatórios não podem esperar. A despedida no fim do expediente é um alerta de que amanhã será pior e um atraso é intolerável.
A cerveja gelada sorvida e o cigarro tragado no bar ao lado da estação de nada aliviam. No apertamento, vê o sol se pôr, assim como o havia visto nascer. Minutos de atraso o fazem perder a conexão e a única opção é caminhar até o condomínio.
No meio do caminho, a chuva cai sem parar. Já no edifício, é a vez de o síndico lhe aporrinhar. Molhado e cansado, sobe pelo elevador. Ao chegar no seu andar, já escuta a discussão dos vizinhos que entrará pela varanda da sala de estar.
Ao entrar em casa, um grito agudo descarrega metade de sua carga. A outra metade se vai quando, ainda com o filho enrolado nas pernas, é recebido por um beijo da mulher. As poucas horas entre a janta e o dormir passam em minutos.
A cabeça pesada repousa no travesseiro, sabendo que, dali a cinco horas, o despertador irá gritar, mas com a certeza de que, pela família, vale tudo novamente encarar.

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