No final das contas, o que interessa é que a dignidade em todas as suas formas alcance a maioria das pessoas. E há diversos valores que dignificam uma pessoa. Liberdade, emprego, saúde. O melhor regime político, aquele que em tese luta por dignificar a maioria, é a democracia. E uma de suas principais ferramentas é a liberdade de imprensa e de expressão.
A liberdade em pensar e de se expressar sempre foi uma pedra no sapato do “pensamento único”, daqueles regimes que representam castas e minorias poderosas. O papel filosófico e político da imprensa verdadeira, do escritor verdadeiro, é minar esta base, levando as pessoas a pensar e saber. E essa é uma verdade que vale tanto para a notícia quanto para a ficção.

A Inquisição espanhola proibiu livros de ficção nas suas colônias americanas por trezentos anos. Os regimes autoritários fecham jornais, criminalizam a informação e censuram à força. Hoje em dia, há formas mais sutis de mordaça. Os gastos dos governos e suas estatais com publicidade dirigida de forma discriminatória, dando as maiores fatias aos veículos “amigos” é uma.

Cidadania se constrói com diversidade e pluralismo, o que só uma sociedade que respeita a liberdade de expressão pode alcançar. A convivência com o contraditório, o debate de ideias e conteúdos, próprio dos regimes democráticos têm na imprensa livre sua garantia e sua disseminação. É uma imprensa com credibilidade, baseada na informação da verdade que dá ao cidadão condições de formar opiniões próprias a respeito dos fatos. A relação de confiança entre cidadão e imprensa é um pacto que não pode ser quebrado. A deformação dos objetivos da imprensa acaba por criar monstruosidades sociais como temos visto tanto país afora como por aqui.

Desmascarar o charlatanismo, desmistificar o culto à personalidade, a visão de que sociedade precisa de um herói para governá-la (o que sugere a incapacidade do povo de autogerir-se) são também objetivos de uma imprensa que quer ser livre. A liberdade de expressão não pode servir de instrumento para criar o monstro que a engolirá.
É certo que a imprensa caminha sob o fio da navalha, já que a verdade sempre desagradará a alguém. Mas assim como uma pessoa sempre tem lado, assim uma instituição feita por pessoas: tudo tem lado. Resta saber qual lado a imprensa quer representar e se tornar porta-voz.

Se queremos ser republicanos, se queremos que a multiplicidade de pensamentos que efervescem numa sociedade tenham sua justa possibilidade de manifestação; se queremos uma sociedade pacífica, tolerante, e ao mesmo tempo justa quando se tratar de punir, quando se tratar de coibir o que a destrói, então nós queremos uma imprensa livre onde se possa discutir e chegar a uma síntese que sirva à maioria.

Nas primeiras luzes do século XXI, novas formas de imprensa estão sendo criadas com a internet como plataforma. Mas o princípio fundamental ainda é o mesmo: o que interessa é que a dignidade em todas as suas formas alcance a maioria das pessoas.

Pedro Stiehl
Escritor

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