Coppetti lamenta que o Brasil não ensina empreendedorismo aos jovens durante o período escolar Crédito: Sebrae-RS/Divulgação

A constatação é do gerente regional do Sebrae, Marco Coppetti

A idade média do empreendedor brasileiro está caindo, afirma o gerente regional do Sebrae-RS no Vale do Sinos, Caí e Paranhana, Marco Coppetti. Isso tem acontecido, segundo ele, porque a moçada sai cedo da faculdade e vê no negócio próprio uma alternativa de tocar a vida, já que as estruturas tradicionais não têm tantas oportunidades. O problema é que, na base curricular — até mesmo nas universidades — quase não se explora a veia empreendedora do jovem e isso torna as coisas mais difíceis. Iniciativas do Sebrae tentam transformar essa cultura. Confira na entrevista a seguir:

O jovem gaúcho tem sido empreendedor? Por quê?
Cada vez mais se observa o crescimento do número de jovens empreendedores no mercado gaúcho. A média de idade dos empreendedores no Rio Grande do Sul estava entre 35 e 45 anos, mas ela caiu e hoje, entre os novos empreendedores, se situa na faixa entre 25 e 33 anos. O importante é que o jovem que está empreendendo tem uma média educacional mais alta. São pessoas que estão se formando cedo, se graduando cedo, e buscam no empreendedorismo uma opção para o mercado. A maioria deles são estudantes que se preparam numa universidade e entendem que as organizações não são abertas para eles ou não têm possibilidades para eles se inserirem dentro de um mercado organizacional. Então, eles buscam no empreendedorismo uma alternativa profissional.

Que iniciativas o Sebrae-RS tem feito ou pode fazer para o jovem que pensa em abrir uma empresa?
Possuímos uma série de metodologias que aplicamos no mercado exatamente para atender ao jovem. Elas começam no projeto “Educação Empreendedora”, que roda dentro das escolas públicas dos municípios para fomentar, instruir, orientar e construir uma base empreendedora nos jovens. Também levamos às universidades os programas de educação empreendedora para inserir este assunto na grade curricular. Além disso, temos metodologias que estruturam o comportamento empreendedor para os jovens, que vão desde o Empretec, um seminário de imersão poderoso para despertar a consciência empreendedora, até a construção de programa de viabilidade técnica para novos negócios. Cada vez nos voltamos mais a essa especialidade.

As escolas falam o suficiente acerca disso, ou seja, estimulam a veia empreendedora? Tens algum bom exemplo a citar?
No Brasil, nós não temos a cultura de fomentar o empreendedorismo nas escolas nem nas universidades. Nossa base educacional vive à margem da consciência empreendedora. Isso traz reflexos bastante nocivos para a formação empreendedora no país. Enquanto países como Coréia do Sul, Alemanha, Canadá e outras nações desenvolvidas têm a educação empreendedora na base curricular e isso se estende ao longo de toda a formação do jovem, no Brasil, nós não temos isso. Dentro das universidades, não existe uma cadeira de empreendedorismo, nas mais variadas graduações. Hoje, um dentista é um empreendedor, um médico é um empreendedor, um engenheiro é um empreendedor. Até um fisioterapeuta é um empreendedor. Eles precisam ter a consciência empreendedora para tocar seus negócios no mundo corporativo, seja dentro de um hospital, seja na construção de um prédio, enfim, atuando em sua profissão.

As instituições de ensino ainda não se acordaram diante deste cenário?
No Brasil, as universidades não têm o hábito de disponibilizar cadeira sobre empreendedorismo para preparar esses jovens acadêmicos, fazendo com que eles venham desenvolvendo competências nessa área, com habilidades, atitudes empreendedoras para que realmente pensem na sua formação acadêmica e na estruturação da sua profissão. Isso realmente traz um prejuízo na consciência, na valorização do empreendedorismo no Brasil. Os reflexos são de que temos hoje baixa dinâmica empreendedora no Brasil. A maioria das pessoas que empreende no Brasil é por necessidade, não por vocação. São jovens que não conseguem ou não vislumbram uma perspectiva profissional dentro das organizações, e aí se remetem ao empreendedorismo sem estarem devidamente preparados para atuarem como empreendedores. A vocação empreendedora tem dois vieses: um deles é a pessoa que já nasce, já tem uma consciência távica, já nasce com isso. E a outra vem de um desenvolvimento da perspectiva empreendedora através de uma formação educacional. No Brasil, infelizmente, essa segunda oportunidade é pouco valorizada.

Basta aos pais incentivarem os filhos, hoje pequenos, a pensar naquela profissão tradicional, com carreira, emprego fixo, ou é hora de abrir os olhos para outras possibilidades, inclusive ter negócio próprio?
Se nós refletirmos sobre o mundo organizacional dentro da estrutura globalizante, nós nos daremos conta que cada vez mais o emprego de carteira assinada tem menos crescimento. Há mais de 10 anos, existe uma tendência forte e crescente de que o empreendedorismo irá ocupar o espaço daquele empregado com carteira assinada, seja através de uma política econômica bastante agressiva, seja com pequenas empresas, com processo de terceirização, com o processo de segmentação dos negócios. A tendência é que o jovem, no futuro, tenha cada vez menos oportunidades dentro das estruturas organizacionais. Portanto, é muito importante que esse jovem que vem caminhando na sua carreira acadêmica tenha, sim, como perspectiva, o autoempreendedorismo.

Menos trabalho com carteira assinada não é retrocesso?
O jovem precisa pensar na sua carreira empreendedora. Isso tem muitas vantagens e a principal delas é que o jovem aposta na economia do país. Ele cria todo um arcabouço intelectual, comportamental, cognitivo e psíquico vocacionado para o viés empreendedor, para a experimentação, para a inovação, para o up grade tecnológico, para a construção de vias econômicas criativas, inovadoras e que irrigam o tecido econômico através de pequenos negócios, pequenos serviços e fundamentalmente negócios atrelados ao cenário de oportunidades globais. Portanto, é muito importante que os pais de hoje estimulem seus filhos a buscar o empreendedorismo, só que isso é um tabu, um mito no Brasil. Se perguntar hoje a um pai que tem um filho saindo da faculdade qual seria a melhor oportunidade, fazer um concurso na Petrobras ou empreender, a maioria dos pais optaria pelo concurso na Petrobras.

Por isso tanta gente dedicando anos e mais anos de estudo para ser aprovado em um concurso público?
Fica claro que o Estado ou a perspectiva do emprego público ainda é muito forte no país. Isso traz um prejuízo nocivo, uma certa dificuldade do jovem se experimentar como empreendedor, porque acaba neutralizando todo o potencial criativo e inovador desses jovens. Existe sim na sociedade um viés de que se tu estás empregado com carteira assinada, tu tens certa “segurança” de um emprego com carteira ou tu buscas um emprego público. As pessoas não pensam no terceiro caminho, que hoje é o caminho mais potencializado neste país e em qualquer país do mundo, que é a empregabilidade pelo empreendedorismo, através da criação de oportunidade de negócios, de uma dinâmica econômica muito diferente. Isso se reflete nos baixos índices de empreendedorismo do país por competência/vocação. Aqui, as pessoas normalmente empreendem por necessidade, por não ter outra opção. Aí acabam encarando abrir um negócio muitas vezes sem habilidade, sem as competências e atitudes necessárias, mas porque não veem outra perspectiva. Agora, aquele empreendedorismo por decisão, por vocação, por desejo, por tesão, esse é bastante limitado no país.

Deixe seu comentário